DESSOCONS: Designs dos Suis, Designs outros, Designs com outros nomes.

Este é um resumo da conversa que tive com o pesquisador Alfredo Gutierrez Borrero para o Podcast Sentipensante.

A conversa com Alfredo se baseou principalmente no que ele chama de DESSOCONS uma sigla significa: Designs dos Suis, Designs outros, designs com outros nomes. Vamos passar por cada um desses termos, destrinchando um por um.

Comecemos com o que Alfredo se refere como Designs dos Suis. Este pesquisador em design, questiona a relação norte/sul do mundo e se pergunta pelo design ou designs (em plural) que estão fora da academia, essas práticas criativas que não são consideradas design, mas que são práticas projetuais. o que significa o conceito do sul a que ele se refere? Respondendo a pergunta, ele explica que esse sul não é geográfico, o sul é uma metáfora que faz referência a práticas esquecidas ou ignoradas, a um lado reprimido que a academia não valoriza. Além disso, ele diz que não há um único sul, que esse sul é plural e diverso. Por isso utiliza a expressão “dos suis”, em plural.

A segunda parte da sigla DESSOCONS que Alfredo cunhou é: “Designs outros”. Para ele, são aquelas ações que em outra cultura tem o mesmo papel do que eu chamo de design na minha, mas possuem outros nomes.

Bom, aprofundemos no que Alfredo chama de Designs dos Suis.

Ele esclarece que este conceito surgiu em conversações com o seu colega Fernando Álvarez, também professor do Departamento de Design da Universidade Jorge Tadeo Lozano.

Para Alfredo, o Sul não é necessariamente uma região geográfica, mas algo que é visto apenas como objeto de estudo da tradição acadêmica. Essa definição surgiu da leitura que Alfredo fez de certos autores, que observam nas relações norte/sul uma dinâmica em que uma parte (o Norte) produz a teoria e a outra (o Sul) é onde se extraem os dados.

Ele cita vários autores como Boaventura de Sousa Santos, Franco Cassano e Raewyn Connell da sociologia, Roberto Dainnotto dos Estudos Literários, Esteban Krotz e Jean e John Comaroff da Antropologia e Sabrina Moura e Thereza Farkas das artes. Ele cita também o sociólogo Edgar Morin para falar sobre vários “suis”, porque para ele há muitos suis: epistemológicos, do conhecimento, do ser.

Trazendo essa idéia do Sul como metáfora para o design, Alfredo se pergunta pelos designs que não vemos, pois entende estes suis não do ponto de vista geográfico, mas no sentido do que o design acadêmico oculta, como por exemplo: o artesanato, práticas criativas quilombolas ou indígenas, talvez práticas que não tem nome. O sul não é geográfico porque podem haver esses tipos de práticas em países do Norte global. Entendo esse sul (ou suis) como uma condição, certas práticas de criação que são situadas fora da academia. Embora o sul esteja relacionado com práticas que concluem em objetos, assim como o design acadêmico, estas práticas não fazem parte da área disciplinar do design.

Para Alfredo, muitas vezes, o design acadêmico tenta absorver diversas concepções de criação, de diversas culturas ou grupos humanos. Por exemplo, Alfredo explica que o termo “design vernacular” foi criado por designers para se referir a artefatos populares. No entanto, é possível que os criadores destes artefatos utilizem outras palavras para se referirem ao que fazem, dando-lhes outros nomes. Isso me lembra do conceito de “gambiarra”, aqui do Brasil. O termo gambiarra se refere muitas vezes àquelas soluções improvisadas, como latas para vender amendoim nas ruas feitas pelo próprio vendedor ou um fogão feito de uma grade de ventilador, por exemplo. As gambiarras costumam ser categorizadas dentro do “design vernacular”. Na lógica de pensamento que Alfredo está nos trazendo, poderíamos nos perguntar: Por que chamar a gambiarra de design se os seus praticantes não a chamam dessa maneira?

Citando o sociólogo brasileiro Marcelo Rosa, Alfredo afirma que devemos buscar histórias do sul em seus próprios termos, que não sejam remetidas a um centro explicativo do Norte.

Há uma tendência em se tratar o Sul como um exemplo e o Norte como referencial. Por exemplo, quando a academia se refere a uma “cadeira”, a referência costuma ser o mobiliário de países da Europa. Isto porque o sul não é o referencial. Por isso, uma “cadeira” indígena brasileira é chamada de “um tipo de cadeira”, e não de outro nome que corresponda com seus valores e tradições. Isto é uma evidência de que existe uma fronteira acadêmica que oculta tudo que está além do referencial do Norte.

Alfredo afirma que ele tem percebido que sempre que se dá um encontro entre o design e as práticas dos outros, o ocidente pauta o assunto e o resto do mundo oferece apenas exemplos sobre esse assunto. Nessa relação, há algo que se perde, pois no resto do mundo há também assuntos que poderiam virar referências.

Alfredo faz uma crítica a o que alguns pesquisadores chamam de “design pluriversal”. O termo design pluriversal é utilizado para abranger outras formas de criação para além do referencial ocidental. No entanto, ao abranger outras formas de criação, este termo está generalizando e ocultando as nuances das diferentes práticas que tenta abarcar.

Voltamos ao argumento do sociólogo Marcelo Rosa. Quando utilizamos o termo design pluriversal para nos referir a práticas criativas indígenas, por exemplo, estamos dizendo que elas são apenas um exemplo de design. Estamos usando uma referência ocidental, o design, para falar de uma prática não-ocidental. Como chamar essas práticas em seus próprios termos?

Bom, agora vamos aprofundar na segunda parte da sigla DESSOCONS: os “designs outros”. Lembremos que DESSOCONS significa “designs dos suis”, “designs outros” e designs com outros nomes.

Agora entremos no que Alfredo quer dizer com Designs Outros. Inspirado em Foucault e no crítico literário marroquino Abdelkebir Khatibi, Alfredo utiliza o termo “designs outros”, que é diferente de “outros designs”. Isto porque, quando ele fala em “designs outros”, não está buscando falar de outros tipos de design que já conhecemos.

Para Alfredo, quando nos referimos a práticas criativas do sul (ou dos suis) devemos escapar da palavra design, porque para além da cultura ocidental há algo que o design não vê. Existem formas de criar artefatos que desaparecem porque o design as devora.

Para explicar melhor o que significam os “dessocons”, Alfredo traz dois conceitos fora da área de design: os equivalentes homeomórficos e a alter-valencia.

Estes conceitos nos ajudam a entender que não podemos ver o “design” que está fora da academia com a mesma lente que utilizamos para ver o design acadêmico.

Alfredo nos conta que sempre está buscando o design fora do campo disciplinar. Quando fazemos isso, encontramos outras coisas, que são parecidas ao design, mas que são ao mesmo tempo muito diferentes. Isto é o que é chamado de homeomorfismo. Este conceito foi criado pelo pensador intercultural, Raimon Panikkar. Para ele, não se trata de uma analogia ou de uma tradução, mas sim do reconhecimento de que noções diferentes desempenham papéis equivalentes, ou seja, ocupam lugares equivalentes nos seus respectivos sistemas. Por exemplo, Jesus Cristo como conceito pode considerar-se semelhante, mas não igual ao conceito de Maomé. De alguma maneira, eles são equivalentes, mas o homeomorfismo os associa respeitando às suas particularidades. Eles não têm relação direta, mas, no universo religioso de cada uma das religiões, eles desempenham um papel semelhante. Desta maneira, Panikkar busca criar instrumentos que ajudem a compreender diferentes elementos em seus próprios termos. Alfredo utiliza os conceitos de Panikkar para refletir e propiciar encontros entre “designs”.

Alfredo traz o conceito de equivalentes homeomórficos junto a um conceito da Química, chamado de ‘alter-valencia’. Este conceito é muito parecido ao conceito de equivalentes homeomórficos que acabei de explicar. A alter-valencia serve para relacionar duas estruturas químicas parecidas ou quase iguais compostas por diferentes elementos. O que é feito por um elemento na primeira estrutura é feito por outro elemento na segunda estrutura. Por exemplo, o que o sódio faz na primeira estrutura é feito pelo potássio na segunda estrutura. O que eu interpreto disso é que a função que um elemento cumpre na primeira estrutura é cumprida por outro elemento na segunda estrutura. Quando relacionamos estes dois elementos encontramos uma equivalência funcional, uma equivalência que relaciona duas coisas que podem ser distintas.

Para explicar essa ideia um pouco melhor, Alfredo cita o arqueólogo Mário Blaser (pronuncia Bla-ser). Ele coloca o exemplo de uma rena e o significado cultural que ela tem para os Innu, povo indígena nômade do Canadá. Para os euro-canadenses, a rena é chamada de Caribu. Os innu chamam este animal de Atiku. Alfredo explica que há uma tensão entre como os ocidentais e os indígenas chamam este animal. Os euro-canadenses, os ocidentais, falam: Atiku é como os indígenas chamam o Caribu. Porém, nesta tradução, há uma riqueza que se perde. O “Caribu”, não como animal, mas como conceito, carrega significados e valores que vêm do ocidente. O Atiku surge de outros valores, de uma outra tradição cultural, a tradição cultural dos Innu. O Atiku e o Caribu são coisas diferentes. Eles são parecidos mas não são iguais. Quando fazemos a tradução, de Átiku para Caribu, parece que ficamos com a ponta do iceberg e o resto se perde.

Mesmo o Caribu sendo uma palavra utilizada pela cultura ocidental, ela é uma apropriação. Esse termo é proveniente do povo Mi’kmaq e foi apropriado pelos franco-canadenses, mas essa apropriação deve ter sido esquecida e o termo passou a ser parte da cultura ocidental canadense.

Alfredo diz que este exemplo da rena, do Caribu e o Atiku é o mais próximo ao que ele chama de “designs outros”, porque não podemos dizer que os “designs” fora da academia são a mesma coisa que o design dentro dela. Cada prática tem seus próprios valores e significados. Colocá-los na mesma categoria faz com que as nuances se percam. Essas generalizações são perigosas porque apagam valores e significados específicos.

Perguntei para Alfredo qual seria a relação entre os “designs outros” e o design hegemônico ou disciplinar que conhecemos. Ele exemplificou falando sobre um ensaio de Vilém Flusser chamado “Skin” ou pele, em português. Explicando o texto, Alfredo conta que o mistério não está na profundidade das coisas, mas na superfície, precisamos de um mistério dermatológico. Uma pele saudável excreta e absorve. Levando isso às disciplinas acadêmicas, Alfredo diz que elas podem absorver muito, mas quando excretam podem impor, capturam o mundo na suas próprias lógicas e não o vem realmente.

Alfredo propõe que o design acadêmico se relacione com os designs outros permitindo que entrem no campo outras terminologias, outras práticas.

Neste ponto da entrevista, Alfredo nos conta que autores como Klaus Krippendorff propõem falar de campo em vez de disciplina. A palavra disciplina tem conotações relacionadas com prêmios e castigos. Alfredo prefere a palavra campo para pensar que nas fronteiras do campo pode haver uma zona mais ampla e indefinida, semi-silvestre, que não é campo, nem é bosque.

Alfredo afirma que temos que ter cuidado antes de falar de design indígena ou design pluriversal, ainda que muitos dos teóricos que falam disso hoje sejam indígenas. Alfredo cita a Willie Ermine, acadêmico indígena que sugere que sempre nos perguntemos: Quem está alimentando a academia? Porque a academia é insaciável. O conhecimento acadêmico termina alimentando a própria academia. Como fazer para que o conhecimento alimente todas as partes? Alfredo explica que se necessita uma interface cultural, como é chamada pelo pesquisador indígena australiano Martín Nakata. Para ele, infelizmente o indígena sempre tem sido construído por uma intervenção ocidental.

Por aqui terminamos esta primeira parte. Devo dizer que este resumo é uma interpretação das teorias que Alfredo está nos trazendo. Para mim, o termo DESSOCONS é uma provocação para olhar/observar para aquilo que o design ignora, que o design oculta. Entendo que Alfredo utiliza os Dessocons para escapar da palavra Design, para fugir da dicotomia entre o acadêmico e o extra-acadêmico.

Para escutar o podcast e a entrevista em espanhol, faz clic aqui: https://sptfy.com/stp7

Este texto foi escrito por mim com a colaboração de Ricardo Cunha Lima e a equipe do Podcast Sentipensante: Clara Oliveira, Débora Andrade, Nicole Ferraz e Thaylly Ramos.

Alfredo Gutierrez Borrero é bacharel em Zootecnia e mestre em estudos de gênero. Atualmente é doutorando em Design e Criação pela Universidade de Caldas, Colômbia e professor associado da Escola de Desenho Industrial da Universidade Jorge Tadeo Lozano em Bogotá, Colômbia. Sua pesquisa se baseia no estudo do que ele cunhou de DESSOCONS, uma sigla em espanhol para Designs dos Suis (sul em plural), Designs outros, designs com outros nomes. Sua pesquisa é uma indagação pelos designs que estão fora da academia, fora da área disciplinar e que possuem outros nomes.

O trabalho de Alfredo tem sido amplamente difundido e citado. Recentemente publicou um capítulo no livro Design in Crisis: New Worlds, Philosophies and Practices editado por Tony Fry e Adam Nocek. O Capítulo do livro se intitula: “When Design Goes South: From Decoloniality, Through Declassification to Dessobons”.

Maria Cristina Ibarra é Doutora em Design pela ESDI/UERJ e Professora Adjunta do Departamento de Design da Universidade Federal de Pernambuco. Realizou Doutorado Sanduíche e atuou como pesquisadora visitante na The Royal Danish Academy of Fine Arts em Copenhague (Dinamarca), especificamente no Codesign Research Centre (CODE). Em maio de 2018, foi convidada pelo projeto ‘Knowing from the inside’: Anthropology, Art Archiecture and Design, coordenado pelo professor Tim Ingold para apresentar a sua pesquisa de doutorado. No final desse mesmo ano, defendeu a primeira tese no campo de Design Anthropology no Brasil. Foi pesquisadora do Laboratório de Design e Antropologia — LaDA da ESDI/UERJ (2015–2019). Ao longo de sua carreira acadêmica, tem pesquisado tópicos como o papel das habilidades de não-designers em processos de design, a relação entre design e antropologia, práticas colaborativas e participativas na cidade, entre outros.

Designer, doctor in design, researcher and university professor at UFPE (BR).

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